terça-feira, 26 de maio de 2015

Conspiração

Este país anda cheio de ranho, narizes e brônquios inflamados, secreções verdes, tosse, espirros, ouvidos entupidos e a doer. Mas disso ninguém fala, não é?

segunda-feira, 25 de maio de 2015

A minha vida é tropeçar em brinquedos

Tenho legos em todas as divisões da casa, livros infantis em cima do meu móvel, da mesa de cabeceira, na estante do corredor, em cima da mesa da sala. Tenho livros insufláveis na banheira, um regador de plástico e um pato amarelo. Um carrinho de bebé de brincar estacionado na cozinha, às vezes no corredor e às vezes no sofá da sala. Tenho bonecos na bancada da cozinha ao pé da tábua de cortar, cubos de encaixar no cesto das cebolas, um bebé vestido de cor de rosa sempre no meu caminho, copos de plástico, garrafas com bonecos cheias de água que ela espalha pela casa. Tenho tachinhos e frigideiras miniatura em cima da mesa da sala e uma pandeireta no sofá.
Pensei dizer alguma coisa sobre isto mas alguém o fez muito melhor do que eu: com fotografias do caraças.  Eu ia gamar uma para ilustrar este post mas não dá. Basicamente é isto, mas com menos princesas.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

*Suspiro*

Há muitas coisas que me aborrecem, entristecem até. O novo canal PAGO feito especialmente para cães; o facto de as mini meias transparentes não serem assim tão transparentes quanto isso; os vídeos de animais fofinhos no facebook com os comentários "e ainda dizem que os bichos não têm sentimentos" ou "são melhores do que as pessoas"; adultos a andar de bicicleta em cima do passeio (é só até aos 12 anos, malta); cogumelos em lata; sopa de ervilhas. Mas o que me aborrece mesmo é ter demorado tanto tempo a perceber como é que se pagam as putas das scuts que tive de desembolsar 300 euros em multas (eram 0,97 cêntimos a multiplicar por meia dúzia de vezes que se transformaram numa fortuna em menos de nada). Isso, parecendo que não, entristece-me muito.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Engolir em seco ou de como o IRS me deprimiu

Ontem fiz o IRS e não queria acreditar que depois de todos os impostos que pago, do ordenado espremido por isso, das despesas que aumentaram porque agora além da saúde e da renda também temos despesas de educação, ter filhos é isto. Não queria acreditar no que ia receber de volta ("e tens sorte é de não pagar"), a miséria que é menos de metade do que recebemos o ano passado. Aquela coisa dos casais com filhos serem beneficiados no IRS deve ter sido a brincar, os incentivos à natalidade também até porque nunca os vi, não sei onde andam a não ser na Suécia e naqueles países frios lá do norte com rankings de felicidade que toda a gente já sabe.
Fiquei com vontade de partir esta merda toda que é sempre a primeira vontade que tenho mas depois fiquei tão triste e desiludida, com pena de nós todos por termos o azar de ter este país assim, com estes governos e estas gentes - porque às tantas o problema deve estar no sangue de todos nós, não há como fugir, não é o Governo que atrai pessoas mal formadas, as pessoas mal formadas somos todos, todos a ver quem se safa melhor - de termos de andar sempre a contar trocos, de não conseguirmos juntar nada para o futuro (que futuro?) de não podermos ter os  filhos que queríamos. Estou tão triste com o pouco mais de ordenado mínimo que vou receber na volta do IRS e depois li esta crónica  e engoli em seco.
A injustiça de tudo deixa-me de estômago à banda, estes esforços que fazemos todos os dias para ter uma vida fixezinha - porque se há mês em que a tornamos bué fixe a conta entra em negativo - não são vistos por ninguém, a ministra das Finanças não me agradece pelos impostos que pago sem receber quase nada em troca e a vida segue, o céu está azul, as pessoas vão para a praia e já está tudo bem, é quase Verão.
E para o ano a creche vai aumentar porque o meu ordenado também aumentou e bem vistas as coisas os aumentos são psicológicos, como o frio, porque o dinheiro só tem a capacidade de diminuir.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Dark side

O lado negro da força é forte em mim. Hoje quero gritar para que me deixem em paz, morder e dar cabeçadas. Não falem comigo, não venham ao pé de mim, não me façam cenas nem ponham em causa cada porra que sai da minha boca. É segunda-feira, saí de casa a correr, levei a miúda ao hospital, não comi até chegar ao trabalho, não acabei de me arranjar como queria, não trouxe o almoço. Tenho a roupa amachucada porque a miúda fez 30 birras e tentou escapar do meu colo como um cabrão de um peixe acabado de pescar, pisou-me os braços enquanto tentava trepar por mim acima, onde queria ir é um mistério. Por favor não me digam nada a menos que eu fale primeiro. Não estabeleçam contacto visual comigo. Não me chamem.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Skinny hate

Acabou-se, não dá, não quero mais. Não quero pernas apertadas, circulação comprometida, pernas às manchas, geladas, com comichões, agachamentos quase impossíveis só para andar de skinny jeans, armada em boa. Não aguento mais. Quando tinha 16 anos usava as calças tão apertadas, tão apertadas que um dia pus-me de cócoras e as costuras rebentaram. Foi hilariante (na altura foi uma vergonha). Acabou-se, tenho 35 anos e já não tenho nada a provar no que diz respeito ao meu corpo, outras que se preocupem com isso. Na verdade nunca se tem nada a provar, diz-nos a voz da razão lá ao longe, mas os humanos são assim, é às mulheres que cabe mostrar as penas e jubas bonitas, se fossemos pavões a vida era mais fácil para nós, os machos que andassem com aquele leque colorido de penas para trás e para a frente, nós cá ficaríamos em tons terra e vidinha descansada, sem pressões.
Tenho um bocado de barriga, não tenho rabo, tenho pernas compridas e fininhas e pés grandes. Gosto de roupa lisa ou com animaizinhos pequeninos ou com riscas, calças de ganga e de preto, deixem-me lá. Não uso decotes nem mostro a barriga, não gosto de calças justas a menos que tenham mais elástico que ganga, não uso saltos, quero lá saber que façam pernas bonitas.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Há 19 anos

Quando me sentava no meu quarto, com as paredes forradas de posters dos Pearl Jam e Nirvana, com recortes do Brad Pitt e do Johnny Depp nos armários, com desenhos feitos a lápis de cor no canto ao pé do puff, a secretária preta cheia de coisas, o diário aberto com queixumes e frases profundas, a aparelhagem ligada e a porta fechada, quando me sentava a escrever e a ter pena de mim própria, a maldizer os meus pais, o meu corpo, o meu cabelo, a minha cara, não imaginava que 19 anos mais tarde estaria a escrever isto uma hora e meia antes de ir para uma reunião de pais, a primeira.
Não imaginava que da minha boca sairiam frases como "cuidado com os dedos", "não ponhas isso na boca", "tens de comer a sopa toda, abre a boca já", "quem é a bebé da mamã?" ou "tens cocó?".
Naqueles tempos de auto comiseração e baixa auto estima, paixões assolapadas e calças à boca de sino, não podia saber que 19 anos depois andaria a dar beijinhos em nódoas negras, beijinhos que curam cabeçadas nas portas e nas ombreiras e no chão, joelhos esfolados e dor de barriga. Há 19 anos eu não dizia "a água agora vai dormir, temos de ir embora da praia" para evitar birras, nem sabia que vê-la finalmente a beber Compal por uma palhinha era melhor do que os moranguitos em Almada Velha ou as cubas libres no Bairro Alto.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

dos nervos

Enervo-me muito. Irrito-me com facilidade. Leio coisas, vejo coisas e o meu fígado dá sinal, as energias todas desequilibradas, nem a acupunctura me salva. Um miúdo no café a jogar no tablet e a ignorar os esforços dos avós cujos olhos se iluminaram quando ele chegou, a falta de educação que mandou calar a avó e a mãe, uma vontade de lhe dar um calduço, nem sequer conheço o puto de lado nenhum, que absurdo, pára com essa merda. Textos mal escritos em jornais de renome com entradas a imitar literatura mas em mau, não há editores com dois palmos de testa, caralho? A meia dúzia de cabrões de pilotos que fizeram greve porque querem encher mais o cú com dinheiro e que impediram o meu irmão de me visitar este fim-de-semana e de passar uns dias com a sobrinha. Aquela merda da miúda que foi violada e engravidou com 12 anos e não a deixam abortar mais os filhos de um comboio de putas que acham que o bebé coitadinho não tem culpa nenhuma e que a miúda deve parir, uma menina, uma criança que ainda devia brincar com bonecas. O gajo do sangue que diz que os homossexuais só podem dar sangue se estiverem em abstinência sexual, de repente este país voltou à idade média, qualquer dia voltam a enforcar e queimar bruxas, que as há, toda a gente sabe. Como me enervo muito acabo por ser bruta para pessoas de quem gosto e que não quero ofender, abro a boca e digo o que penso sem mais nada e as coisas não podem ser assim principalmente quando ninguém me pediu opinião para nada. Nesta altura a única coisa que me ajuda são as festas no cabelo que o meu marido me faz mas infelizmente não podemos estar juntos a toda a hora e a acupunctura é só de 15 em 15 dias, de maneira que me dói a cabeça e os ombros dos nervos.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

inveja

Gostava de ter o jeito para as artes da Mexicola Girl, a ironia requintada do monsieur Pipoco, a profundidade da Dias de Telha, a piada do André, a capacidade de mobilização da Pólo Norte (que usaria, obviamente, para o mal) as fotografias da Hula , a comida da Tracy, o bom gosto da Bleubird. Também gostava de ser um bocadinho como a Amy Schumer e escrever com tanta graça como a Tina Fey mas infelizmente só me saem asneiras.

Body shaming ou deixem-nos em paz

Uma publicidade da Protein's World que perguntava se já temos o corpo pronto para a praia (Are you beach body ready?), ilustrado por uma boazuda de biquini, irritou os transeuntes e utilizadores do metro. Rapidamente os cartazes começaram a aparecer riscados e com respostas óptimas de quem não leva merdas para casa. Esta puta desta mania de tentar envergonhar o comum dos mortais dizendo-lhe que não é suficientemente bom ou porque não tem corpo de manequim, ou porque tem ondas no cabelo, ou porque não corre, ou porque bebe leite, ou porque come hidratos, ou porque não tem pestanas até às sobrancelhas, ou porque não tem o abdómen aos quadrados, ou porque não pinta o cabelo, ou porque tem as mamas pequenas, ou porque é careca, ou porque. Agora nem para ir à praia se presta, segundo a empresa de merdas para perder peso que é a Protein World. 
A resposta que mais gostei foi a de duas manifestantes que pousaram em biquíni, com o corpo que deus lhes deu, com celulite e barriga e flacidez porque o corpo não é feito de borracha para grande desgosto de alguns milhares de pessoas, ao pé do cartaz publicitário acompanhadas por uma simples frase: "How to get a beach body: get your body to the beach". Fuck yeah.
A cambada de filhos de um comboio de putas que gere a Protein World respondeu no twitter coisas como "and it's ok to be fat and out of shape instead of healthy?" entre coisas piores. Como se aquela merda de anúncio apelasse à saúde e não à aparência e beleza. Como se ser gordo ou ter mais quilos do que é socialmente aceitável fosse o oposto de ser saudável. Foda-se.