sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Ensaio sobre o ar condicionado no trabalho

Nunca trabalhei num sítio onde não houvesse problemas com a porra dos ares condicionados. Ou porque era controlado por uma central mistério que, claramente, nos queria transformar em pinguins, ou porque tenho colegas que têm o termostato avariado e estão sempre com calor. Mesmo quando não está.
O nível de desconforto que o a condicionado me provoca é tão grande que só me apetece ter um ataque de nervos e desatar a partir tudo enquanto grito que já não aguento mais tanta pele seca, que assim não ganho para os cremes das mãos, que os meus olhos estão a arder e que não consigo tirar o caralho do casaco porque está frio. E eu não quero mais trabalhar com frio. Já chega. São muitos anos nisto. Estou farta desta merda e farta de ser a chata que se queixa porque o resto dos friorentos já desistiu. Rendo-me. Fiquem com a merda do ar condicionado ligado, sequem a pele à vontade, arrefeçam as vossas camadas adiposas que eu vou escrever para casa. Não nasci para sofrer. Todos os dias esta batalha, no Inverno mantas nos ombros - porque aparentemente o ar condicionado nos locais de trabalho só funciona para ar frio - e aquecedores colados às pernas. No Verão, casacos vestidos porque 25 graus na rua, já se sabe, é clima tropical. Puta que pariu esta merda. Foda-se pá. Para o conforto de uns, o desconforto de outros. Estou farta, caralho.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Nos anos 90

Nos anos 90 cosíamos triângulos de tecido nas calças para as transformarmos em boca de sino.
Nos anos 90 íamos à Loja do Velho, na Baixa, comprar calças à boca de sino. Nos anos 90 usávamos camisas de flanela à cintura e pintávamos o cabelo de verde e azul e vermelho como o Kurt Cobain.
Nos anos 90 as canções eram todas muito profundas, cheias de ameaças de suicídio, revoltas contra a sociedade, o amor, os pais, a moral e era tanta profundidade que éramos todos deprimidos.
Nos anos 90 fumavam-se charros atrás do pavilhão. Nos anos 90 dizíamos ganzas.
Nos anos 90 ainda havia o Rookie e o Rockline. Nos anos 90 ia ao Rockline mas nunca fui ao Rookie e nem sem bem como se escreve.
Nos anos 90 o país despertou para o surf e havia o Portugal Radical. Nos anos 90 a Rita Seguro era gira e a Raquel Prates também porque quase não usavam maquilhagem e não fazia mal.
Nos anos 90 o Kurt Cobain matou-se e chorámos todos muito. Nos anos 90 começou o flagelo das boy e girl bands. Nos anos 90 as cantoras ainda não se despiam todas porque cantar era mais importante mesmo que a música não prestasse. Nos anos 90 a Inglaterra apresentou-nos a Brit Pop e os irmãos Gallagher.
Nos anos 90 usavam-se uns fios pretos com retorcidos tribais muitos rentes ao pescoço. Nos anos 90 usavam-se Airwalks, Redleys e Yellow Cabs de lona. Usavam-se Doc Martens e Rangers. Nos anos 90 íamos à feira da ladra comprar mochilas e sacos a tiracolo na loja das cenas militares. Nos anos 90 os Bollycaos davam cromos do Beverly Hills. Nos anos 90 dava o Beverly Hills 90210 e o Luke Perry era o gajo mais giro que alguma vez tínhamos visto.
Nos anos 90 morreu o Brandon Lee, filho do Bruce Lee, dando origem a um mito de maldição familiar quando na verdade um morreu de doença e o outro de um acidente parvo.
Nos anos 90 o Ediberto Lima ainda traduzia programas de animais e a Ana Malhoa ainda não tinha mamas.
Nos anos 90 usavam-se as calças largas às riscas que os peruanos vendiam nas feiras. Nos anos 90 a Loja das Viagens era a cena mais fixe de decoração que havia. Nos anos 90 toda a gente tinha espanta espíritos e caça sonhos pendurados no quarto.
Nos anos 90 o Gameboy era espectacular.
Nos anos 90 usávamos símbolos da paz ao pescoço, presos num cordão preto rente ao pescoço. Nos anos 90 usávamos relógios Swatch e tops de manga curta a mostrar a barriga, com coisas escritas tão estúpidas como "100% girl" ou "I love boys".
Nos anos 90 apaixonei-me pelo Axl Rose, pelo Bon Jovi, pelo Joe Perry (Aerosmith), pelo Eddie Vedder, pelo Brad Pitt e pelo Johnny Depp.
Nos anos 90 vi o unplugged dos Pearl Jam mais de dez vezes com o coração aos pulos. Nos anos 90 dancei ao som de Feijão com Arroz da Daniela Mercury na primeira passagem de ano que passei com amigos. Nos anos 90 passei a primeira passagem de ano sem adultos por perto. Nos anos 90 apanhei a primeira bebedeira e vomitei.
Nos anos 90 Gold Strike era bom.
Nos anos 90 havia super modelos com boas pernas e mamas mas depois apareceu a Kate Moss e estragou tudo.
Nos anos 90 tirei a carta e senti-me livre. Nos anos 90 decidi o que queria fazer na vida sem saber que ninguém iria dar valor ao fruto do meu trabalho (e de dos outros como eu).



terça-feira, 1 de setembro de 2015

O dia em que levei um estaladão da minha filha

Caralho, que ainda ontem estava a fumar uma ganza (um charro, pá) na varanda do meu quarto com as minhas melhores amigas e agora de repente tenho de explicar a um ser pequenino que não se bate na mamã que por acaso sou eu?
Disse-lhe que eram horas de ir jantar. Estava sentada no sofá a ver televisão e respondeu-me "não", palavra que repete a toda a hora seja qual for a pergunta. Sentei-me ao lado dela e repeti a ordem. Bateu-me no ombro, ao de leve, a mãozinha primeiro toda para trás para ganhar balanço, naquele gesto amuado, a cara fechada, boquinha chateada, pimba. Levantei a voz, ligeiramente, zanguei-me, disse não e antes que tivesse tempo de pensar levei com uma bofetada nas trombas que até fiquei sem fala durante três segundos. A cara dela zangada, não queria porque não queria jantar, não queria deixar a televisão e os desenhos animados. As sobrancelhas carregadas, a mão no ar, a cara de quem acha que não tem de obedecer a nada, e zás, o estalo.
O meu cérebro a funcionar mais depressa, não foi para isto que me inscrevi, ora que porra, esta pirralha desgraçada, espera aí que já te digo. Transformei-me num Hulk controlado, fechei o computador com um estrondo, acabou-se, gritei eu, ela a chorar de forma imediata, desesperada, arrastei-a por um braço até ao quarto e sentei-a no chão de frente para a parede branca e entediante, estás de castigo, de castigo. Ela a chorar como nunca a tinha visto, lágrimas a correr, vermelha como um tomate, soluços atrás de soluços. Assim ficou, a agressora de palmo e meio. Tentou levantar-se passado uns segundos, zanguei-me, mandei sentar-se, disse que não e não e não, abanava a cabeça, a chorar mais e mais, mas sentou-se, só te levantas quando eu disser, ouviste? Antes que voltasse a levantar-se e eu perdesse a autoridade, cabrões dos putos que são como os cães nisto da obediência, disse para vir ao pé de mim. Abraçou-me, a chorar, a chorar. Expliquei que não se batia, que era feio, não se bate na mamã, pede desculpa disse eu, um beijinho dela e um abraço, lágrimas secas com as minhas mãos e tudo bem. Mais beijinhos e um jantar todo comidinho que foi uma beleza. Hoje de manhã apontou para o sítio onde tinha estado de castigo e disse "não, menina Amália não tau tau." Espertalhona.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Show me a Hero mas que seja mulher

1) Deve ter pelo menos duas mulheres que...
2) ... falem uma com a outra...
3) ... sobre qualquer coisa que não sejam homens.

Eu acrescentaria roupa e o corpo no geral.
Este teste, cujo crédito é dado a Alison Bechedel, uma autora de banda desenhada (comprem já, agradecem-me depois) cuja obra está cheia de manifestos feministas.
Na semana passada entrei numa discussão com o meu marido por causa de uma série. Não sabia eu deste teste senão tinha atirado este argumento lá para o meio, tinha sido uma maravilha e toda eu brilhava. A discussão foi sobre uma série nova (mini série) chamada "Show me a Hero" com o bonitão do Oscar Isaac. Uma historieta real sobre um gajo chamado Nick Wasicsko, o mais novo mayor dos EUA eleito em 1987. Uma porra de uma história chata e sem interesse nenhum mas que alguém achou que devia transformar em mini série porque os problemas da altura continuam actuais, diz o autor da série. Problemas esses relacionados com os chamados bairros sociais e sobre o facto de a população não querer que se construam bairros sociais no meio das suas residências. Que grande admiração, foda-se.
Estava eu no sofá a ver aquilo quando comecei a sentir-me aborrecida, farta e pior do que isso, zangada. Demorei três segundos para perceber o que era: as únicas mulheres que apareciam era secretárias ou gajas em busca de homem. De resto era um desfile de homens a falar de política local, um suplício, uma merda que não percebo como é que se faz em pleno século XXI. Uma porra machista sobre uma história que só tem interesse para 3 pessoas, os pais do mayor e aparentemente o meu marido (beijinho bom, meu amor) que me disse que eu agora via todas as coisas por esse prisma. O prisma do machismo no mundo em geral, quis ele dizer. Respirei fundo três vezes para não lhe arrancar um olho, porque é preciso ser homem para não perceber que estas coisas existem e que o mundo do cinema e das séries é misógino mas eu expliquei-lhe. Um mundo que, por ser tão importante e passar tantas mensagens, podia fazer a diferença mas opta por não o fazer. De certeza que há mulheres com histórias reais muito mais interessantes do que o herói do "Show me a Hero" mas ninguém se deu ao trabalho de procurar.
Duas mulheres que falem uma com a outra sobre alguma coisa que não sejam homens. Vamos lá, vocês conseguem, miúdos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Nos anos 80

Nos anos 80 os pais fumavam no carro com os putos lá atrás. Nos anos 80 não se usava cinto de segurança nem havia cadeirinhas nem ovos. Nos anos 80 a rtp passava telediscos. Nos anos 80 dizia-se telediscos. Nos anos 80 as barbies eram muito caras. Nos anos 80 os pin&pon quase não tinham cara e estranhammete eram mais queridos dos que os de hoje em dia. Nos anos 80 os pais usavam bigode e as novelas brasileiras da hora do almoço eram tão boas como as da noite. Nos anos 80 dava a Rua Sésamo em Portugal e por isso todos sabíamos o lugar do W e do Y no alfabeto. Nos anos 80 chamávamos i grego ao ípsilon e duplo V ao W. Nos anos 80 o festival da canção era divertido e os Jogos sem Fronteiras existiam. Nos anos 80 a roupa não condizia e os cabelos eram assustadores. Nos anos 80 brincava-se na rua e as fotografias eram poucas e em papel. Nos anos 80 havia sempre rebuçados (caramelos de fruta) Penha nas festas de anos. Nos anos 80 Trinaranjus é que era fixe. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Quero ser avó

Deve ser bom ser avó. Só diversão e nenhuma birra. Não há fitas porque também não há contrariedades - os avós não dizem não. Brincadeira todo o dia, gargalhadas, jogos e no fim do dia um relatório detalhado de tudo o que fizeram com os netos, intercalado com muitos elogios à criança, que, naturalmente, é a mais e a melhor em tudo. Os avós são seres estranhos que os filhos não reconhecem e com os quais até gozam um bocadinho quando eles não estão a ver. A verdade é que estão mesmo a pedi-las, com as suas vozes em falsete, os seus saltos e mergulhos para o chão (os avós passam imenso tempo no chão), a sua incapacidade de se concentrar em algo mais que não o neto. Os avós são o melhor do mundo e o pior também. Há poucas coisas mais cansativas do que estar na mesma sala que um avô e um neto a pedir um minuto de atenção. Um neto que passe uns dias seguidos com os avós transforma-se num imperador que quando volta para casa transforma a vida dos pais num inferno de birras e recusas em fazer coisas tão básicas como "por favor anda lavar os dentes". Os avós são como os netos que só querem brincadeira e não ligam a regras nem obrigações, principalmente quando os pais (filhos) estão presentes. Além disso os avós são seres com energia inesgotável. Eles vão à praia, eles vão ao parque, eles dão almoço, carregam mochilas, fazem de aviões e cavalos sem nunca desmaiar de cansaço, como uma espécie de super poder. E mesmo que nunca tenham brincado muito com os filhos, sabem brincar com os netos sem que ninguém lhes tenha ensinado. Os avós são do caralho quando somos netos e um bocadinho chatos quando somos pais. mas suponho que seja a ordem natural das coisas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Coisas que nunca tive

- Barriga lisa
- Papeira
- Gatos

Refém

Precisava de ir uns dias para um sítio na natureza, assim uma coisa à filme, cheia de verde e brisas suaves, um quarto rústico e confortável com uma secretária ao pé da janela, pequeno-almoço cheio de coisas boas, sem preocupações. Uns dias sem mais nada senão decidir o que vou fazer daqui em diante além de trabalhar. Uns dias para me encontrar, para me concentrar e traçar um plano, um projecto, folhas cheias de coisas escritas. Mas depois o meu coração aperta-se porque está refém da minha filha e deixo-me ficar na rotina de todos os dias só para poder ver a cara dela quando sorri, quando amua e quando me esfrangalha os nervos porque tudo o que ela faz é maravilhoso, mesmo quando não é, mesmo quando eu tenho de me zangar (que é quase todos os dias, ultimamente). E deixo-me ficar, mesmo quando preciso mesmo de ir, porque no fundo do meu coração, mesmo lá na ponta mais a norte, há um medo que ela deixe de gostar de mim.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Manequins

As entrevistas a modelos têm sempre citações destacadas que dizem que ela era uma maria rapaz, pouco feminina, gozada por ser muito magra e que nunca quis ser manequim. Penso que o objectivo é termos pena por elas serem tão magrinhas e por terem uma profissão com a qual nunca sonharam. Há vidas difíceis.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Mediocridade

Às vezes sinto-me assoberbada com a quantidade de mediocridade que prolifera por aí.